Ontem eu fui pescar de vadeio no Ribeirão Encano, no Encano Central (eu pesco na modalidade fly fishing. A Bianca, fotógrafa da vida selvagem e minha padawan, não quis pescar, ao invés, passou o tempo fotografando, comendo “tanjerinas” selvagens, filmando e explorando os locais, além de ser a minha fotografa oficial.

Quando eu já tinha capturado (fotografado e soltado) o primeiro lambari, apareceu o Sr. Fritz local, que se chama Fritzke, mas essa pronuncia também é só o que a Bianca entendeu, pra mim continua sendo só Fritz, rs. O tal homem chegou no rio cheio de marra, dizendo que não se podia pescar ali, que pegaria a placa do meu carro e ligaria para a “Ambiental” e tudo mais. Bom, argumentei que tenho licença do Ibama, que estava praticando Catch & Release e que tinha sim o direito de pescar naquele local, afinal, margem de rio é de acesso público. Claro que argumentei com muito tato e educação. Mas nunca vou esquecer que quando eu disse que tenho licença do Ibama ele soltou: “Ahhhh mas vai dizê!” com aquele tom de deboche. Sensacional.

Mas ao perceber que eu falava sério, o Sr. Fritz deu meia volta e resolveu prosear mais com a gente antes de tomar atitudes tão radicais. Apontando para uma curva mais acima no rio, nos contou sobre uma cobra que mora por lá, que tem por baixo uns 12 metros e só a cabeça já era maior que um dos seus porcos de 300kg, contou a história de como um dia ela veio descendo o rio para se levantar 3 metros fora d’água e engolir numa só bocada uma capivara de mais de 20kg. Era realmente muito perigoso andar por aquelas bandas.

No meio da prosa com a Bianca, porque eu já tava caminhando ao encontro aos lambaris (e da monstruosa serpente devoradora de capivaras), o Sr. Fritz ofereceu “feijon” colhido 2 dias antes, e claro, “uns tanjerinas” da sua “plantaçon”. A Bianca combinou que queríamos sim, pegaríamos depois.

Fiquei feliz pela atitude do homem, que mais tarde se desculpou por ter chegado “ralhando” daquela forma. Explicou que tem muita gente que chega ali com suas tarrafas e mata tudo, ele achou que eu poderia ser um deles. Não sei qual é a graça em pescar com tarrafa, além de ser permitida somente para pesca profissional em algumas regiões, visa somente a produtividade, pegar o peixe e nada mais.

Pescar esportivamente – expressão que eu não gosto muito, mas que ainda é a única que se encaixa no que fazemos – não prioriza o fim, que é o peixe, prioriza o meio, que é a maneira de pegar o peixe e tudo relacionado a isso. Compreende o estudo das espécies, seus hábitos de reprodução e alimentares, o estudo do clima e ecossistemas das regiões, passando pelo estudo das fases da vida de tudo aquilo que serve de comida dos peixes pretendidos durante o ano. Isso só pra simplificar as coisas, no caso da pesca com mosca (fly fishing) tem muito mais. Caminhar pelo rio revirando pedras na tentativa de fotografar e posteriormente identificar ninfas de insetos e compreender o ciclo de eclosão durante o ano, entre outras coisas, também faz um bom pescador. Tudo isso proporciona ao cabra um extremo convívio com a natureza, o faz respeitá-la, e consequentemente desperta uma vontade incontrolável de preservá-la. Ninguém se interessa muito em preservar aquilo que pode, aparentemente, não lhe fazer falta, e é complicado de convencer alguém da falta que vai fazer o mico-leão-dourado ou o caranguejo real do Alaska. Sacaram como pescar é, além de prazeroso, muito educativo?

Mas voltando ao Fritz, depois de mais uma horinha pescando e antes de partir para outro ponto do rio, resolvemos subir até a casa do homem pra buscar o feijão recém colhido a 4,50 pilas o quilo. Minha nossa, o homem fala mais que a mulher da cobra e pobre na chuva juntos. Ele me mostrou seus porcos e o chiqueiro quase caindo, explicou que não consegue arrumá-los porque “a ambiental” quer cobrar 20 pilas por árvore que ele derrubar para usar a madeira, e isso porque ele vai plantar outras no lugar. “Mas eu não to roubando, to tirando da minha propriedade”. A “Ambiental” pelo visto prefere que ele compre a madeira pra arrumar o chiqueiro de porcos, isso lhe faz algum sentido? De onde viria a madeira que ele compraria? Heim? Fiquei pensando no que pode passar pela cabeça do pobre quando vê que a Amazônia ta indo pro saco, ta virando ainda mais grana na mão de milionário amigo de político, mas resolvi nem comentar.

Achei mais recompensador brincar com o piá loirinho de olhos azuis Willian, que o homem pronunciava algo como “VirrrRãm”, segundo eles eram 9 netos, e todos começavam com “V”, rs.
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