Trashumanismo e as novas palavras de ordem

O título não está errado e este pode ser um texto de difícil digestão.

Vocês poderiam achar que eu estava prestes a falar sobre o transhumanismo, mas teriam se enganado. Inspirado no termo criado pelo Huxley o adaptei a uma nova tendência humana identificada por mim mesmo. O trashhumanismo de que falo é paralelo ao desencaminhamento dos nossos atos ecológicos, é o desencaminhamento de nós mesmos, os humanos.

Posso contar uma história pessoal?

Há algumas semanas eu perdi meu celular na rua, quando voltei pra casa liguei para a operadora e o bloqueei. No dia seguinte, um amigo me ligou e disse: Junior, um tal de fulano de tal me ligou dizendo que encontrou seu celular na rua, ele disse que pegou o meu número na agenda do seu celular e me ligou para eu pedir para você ligar no seu próprio celular pra falar com ele. Entenderam? Tentem de novo, parece complicado, mas é simples.

Liguei na operadora e solicitei o desbloqueio. Liguei para o meu próprio número e o fulano de tal atendeu, disse que é motoboy, morava na zonal sul (a mesma que eu) e que entre um trabalho e outro poderia passar aqui pra me entregar o aparelho. Claro que eu fiquei grato, pensei imediatamente que aquela atitude merecia uma gratificação. Cheguei a comentar com a Bianca e ela disse: Ahh que legal, que pessoa mais boa. Respondi que tinha certeza de que não era uma pessoa boa. Existem poucas delas vagando pelo mundo, pensei. Mais tarde o jovem fulano de tal apareceu, nem desceu da motoca e me disse:

Eaê? O que nóis converrrsa?

Eu ergui uma sobrancelha, fiz que não entendi e ele continuou:

Quero 100 pau, senão vô fica com o telefone.

Eu que já tinha reparado na tatuagem que ele ostentava no braço, daquelas que não se faz em estúdios de tatuagem se é que me entendem, dei as costas e voltei pra dentro pensando: Ele encontrou algo que não é dele, sabe de quem é e recusa-se a devolver? Isso é roubo, esse cara é um ladrão, na cara dura.

Bom, isso foi só pra ilustrar. Eu que já vinha me sentindo bem decepcionado com o ser humano em geral, resolvi assistir ao jornal mais assistido da plin-plin, eis que vejo uma reportagem sobre um protesto pacífico nas escadarias de um órgão de justiça no Rio de Janeiro em que os transeuntes, mesmo com toda cobertura da imprensa, nem se importavam. A reportagem era exatamente sobre isso, sobre a banalização do mal.

É por esse caminho que a nossa vaquinha vem andando até chegar ao brejo; As pessoas não se importam mais, elas até sabem que as coisas estão indo de mal a pior, mas se conformam. Isso é o trashumanism, the next generation. A nossa evolução é a adaptação ao lixo em que estamos nos transformando.

Tudo bem, concordo que existam rincões onde aparentemente o bem prevalece sobre o mau, mas eles não são suficientes para abalar o meu ceticismo. No século retrasado, durante o naturalismo (não confundam com naturismo) imaginava-se que o humano fosse regido por variáveis alheias à sua vontade. Ainda hoje muitos parecem pensar assim quando colocam a culpa de tudo no meio onde as pessoas estão inseridas, eu não acredito nisso.

Um estilo de vida sobrevivencialista (não sei se essa palavra já existia) se fortalece a cada dia e o sentido das palavras bem e mal passaram a ser cada vez mais subjetivos, adaptados a necessidades preocupantemente individuais. Existem vários exemplos, sobre tudo exemplos onde individualismo sobrevivencialista impera impiedosamente sobre o bem coletivo. Vemos isso todos os dias. Muito se discute o capitalismo, o socialismo, comunismo e outros ismos, agora vivemos o sobrevivencialismo.

Nasce um sentimento coletivo de individualidade onde só importa aquilo que nos afeta diretamente, e pior, no momento. É o famoso salve-se quem puder, quase um clima de guerra sem estarmos em guerra. Existe meia dúzia de gatos pingados nadando contra a maré? Sim, em especial aqueles que já foram abatidos por alguma tragédia, acompanhados de mais meia dúzia de utópicos. De resto é hipocrisia pura, outra especialidade humana aperfeiçoada com esmero a cada nova demonstração de degradação social a que nós mesmos nos presenteamos.

Não quero falar sobre política, é só mais um exemplo ilustrativo. Vejo pessoas descendo a frigideirada nos políticos, nas autoridades, nos poderes constituídos… Mas o que eles refletem já que são os nossos representantes, saídos do nosso meio através das nossas escolhas? Condenamos o individualismo dessa gente em detrimento da grande massa aparentemente querendo isentar a massa de culpa.

Condenamos as ações dos lideres para esconder o fato de que agimos igual a eles, eles nos refletem e nós a eles. Mas existe uma diferença sutil, eles se organizaram em um coletivo, nós não. Qualquer união é mais forte que qualquer indivíduo. O mais estranho é que apesar de sermos indivíduos desorganizados, o coletivo acima nos vê organizado num coletivo permissionista.

Eu sei, estou chovendo no molhado, perdoem-me por sempre fazer esse blog chover no molhado, é final de semana e eu aqui com essas conjecturas pessimistas e tristes com o cão Ozzy dormindo ao meu lado, preocupaaado. Mas daqui a pouco, depois que eu carregar um caminhão, vou pra casa da minha irmã visitar minha sobrinha e sua filha. Sei que não deixarei de ser uma pessoa esquisita, mas por algum momento vou parar (ou não) de me perguntar coisas do tipo: Para onde nós estamos levando a nossa vaquinha?

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Publicado em cultura
23 comentários em “Trashumanismo e as novas palavras de ordem
  1. Carol disse:

    Amigo, passei por maus bocados mas tô de volta.
    Que sinistro isso, hein? Tive um caso meio que parecido certa vez, envolvendo um quase-acidente de trânsito. O meliante me arrancou o conserto da moto, embora eu não tenha de fato nem encostado nele…
    Stitch castrou ontem e eu só lembrei do post sobre a cirurgia de Ozzy.
    Bjs.

  2. Flavia Sereia disse:

    Sabe, as vezes penso que quem tá certo é o Ozzy, que não tá nem ai pra nada. rss

    bjs e otimo finde

  3. Claudio disse:

    Amigo, eu tenho assistido LOST -3a temp. baixando os episódios da semana pelo web. Sou viciadão e não aguento esperar chegar na tV brasileira. Se precisar de ajuda para fazer o mesmo é só falar, ok?

    abração

  4. Valérie disse:

    Afe maria! Passei aqui para ler o PAC PAC mas não consegui ler. Ler Frigideira tem que ser com calma, sem pirralhinho da mãmis aqui querendo o PC, nem maridão perguntando da bóia. Foi-se o tempo que tinha manhãs e mais manhãs livres para meus amigos buáaááá.

    Bom já chorei as mazelas, vamos ao post: Júnior, me preocupo muito com nosso futuro. Não sei o que vai dar. Um dia perdi meu celular e ainda bem que uma alma caridosa de verdade me devolveu.

    Os valores de família, os valores de indivíduo se diluem. Vc pode até não concordar, mas na minha opinião o que ainda segurava alguns valores mais nobres era a Igreja. Não digo a entidade em si, mas o fato do ser humano ser temente a Deus. Pelo menos entre os mais humildes e ignorantes. Hoje, banaliza-se até o temor que temos por Ele. E se não o Teme, vai temer a quem ou ao quê?

    Beijocas para vc, Bianca e Ozzy (como ele tá lindo!! hehehe)

  5. Luma disse:

    Fala do mundo trash, mas ainda acredito na humanidade! Ou assim tem que ser, como uma norma para não perder as esperanças. Até não gosto muito do termo esperança, parece algo também pós-qualquer coisa, como se tudo tivesse acabado. Talvez tenhamos que ir ao fundo do poço para resgatarmos dignidade. Vai saber! Gosto muito dos animais. Boa semana! Beijus

  6. Bender disse:

    100 pila por um celular? Esse cara além de desonesto é completamente sem noção.

    Meu celular vale mais ou menos 4 reais, e não o troco por um de 1000.

  7. Carla disse:

    Mundo, mundo, vasto mundo…como diria Drummond. A gente quer, com força, acreditar que ainda existem pessoas que se importam com o próximo, mas fica cada vez mais difícil, né?
    Acho que o homem lá em cima tirou férias porque não aguentou o pesadelo por aqui, lamentavelmente.
    Bjus.

  8. tina disse:

    Concordo com você em vários aspectos Junior, mas ainda não me dei por vencida, apesar de achar que a “vaquinha” está na beira do brejo.

    beijos querido e boa semana.

  9. […] R$ 100 por um celular usado A televisão revolucionária Bom humor para não ser rebaixado Ser humano sobreviveria até 60 segundos exposto ao vácuo A origem do jogo Banco Imobiliáro (ou um beta-test extremamente bem sucedido)Compare Preços de: Bebidas, DVD, Ferramentas, Livros, Carros, Computador, Eletrodomésticos, CD Enviado por Bender Arquivado em Blogs, reblog Volte para Melhor empresa para se blogar ou vá para Posts similares no Bender Blog: As piores capas de videogame […]

  10. Yvonne disse:

    Querido, seu post me deixou sem comentários. Beijocas cheias de medo

  11. DO disse:

    Absolutamente vc não esta chovendo no molhado,JUNIOR. pelo menos ainda temos a capacidade de nos indignarmos.É a ultima esperança.
    Mas,sinceramente,acredito que o mundo já acabou. Tudo já perdeu o sentido e,seguindo a linha do seu post,a tendência é mesmo o fim da chamada “humanidade”.
    Trágico? Será que é? Afinal pra que o mundo precisa de uma raça destas??
    Não estou generalizando. Claro que existem muitas pessoas boas. Mas elas estão anestesiadas e presas dentro das próprias casas. Dos próprios medos.

    Já falei demais pro meu gosto,heheheh
    Abração!

  12. Bruna disse:

    Junior, belo título, nem tem o que comentar.

    Todos somos desonestos. É um tal de baixar música pela web, baixar filmes, pirataria, puxar o cabo da TV do vizinho pra sua casa, usar a luz do condomínio… enfim! Somos lixo, em todos os lugares.

    Obviamente, alguns são piores. Já estão a mais tempo em decomposição.

    Beijos.

  13. Cristina Lima disse:

    Lembra do :”do pó vieste , ao pó voltarás” ?

    Assim como vários colegas acima, além de um grande beijo para você , não tenho nada a declarar.
    Até!

  14. Suzy Tude disse:

    Júnior, gostei do termo. Aliás estamos numa época bem trah-Lula, não?
    Beijo

  15. Saramar disse:

    Você tem razão, como sempre.
    O individualismo burro está nos levando para o lado do mal absoluto. E estamos indo como ovelhas, aceitando todas as barbaridades e até as pequenas mesquinharias como normalidades.
    O cinismo, no mal sentido impera.
    Infelizmente.

  16. Silvia disse:

    Oi, Junior, vim responder aqui – é que eu PRECISO ter esperança na nova geração. Minha neta Helena vai nascer no mês que vem!!! []s

  17. NEGÃO disse:

    Você já respondeu a pergunta: Pro brejo da letargia coletiva em que vivemos, infelizmente.

  18. Peço estudo da história, depois do individualismo veio o iluminismo.Quem sabe repete-se?
    Qt ao celular, qt custa um novo? Quem sabe valia a pena ?Eu nem tenho celular porque já acho um roubo.Meu rpotesto ante os nossos tempos é detalhista.

  19. Lara disse:

    É,
    palavras como caráter, hoestidade e empatia são coisas tão distantes quanto a paz que tanto desejamos… 🙂
    BJu moço!

  20. Disse tudo como sempre Jú!
    BjoooS.

  21. Douglas disse:

    Quando perdi o meu telefone, no fim do ano passado, tentei ligar para o sujeito que o encontrou, mas ele na sua imensa simpatia não quis falar comigo, e pediu pra eu nunca mais ligar pra aquele número. Quase fiquei com dó dele. ¬¬

    Eu não acredito que o ser humano evolui, e nem espero muita coisa dele. Comodismo? Pode ser. É uma palavra.

    Sobrevivamos e enfeitemos nossos calabouços.

    Abração e bom fim de semana.

  22. […] Já comentei aqui que no século retrasado, durante o naturalismo (não confundam com naturismo heim safadinha(o)s) imaginava-se que o humano fosse regido por variáveis alheias à sua vontade. Ainda hoje muitos parecem pensar assim quando creditam a violência ao meio onde as pessoas estão inseridas. Eu não acredito nisso. Conheço dezenas de pessoas que viveram suas vidas miseráveis enfavelados em becos cheirando a merda que corria a céu aberto; A grande maioria delas cresceu, viveu e criou seus barrigudinhos sem nunca ter cometido um crime, pagando rigorosamente em dia o carnê das casas bahia. Poucos deles, bem poucos mesmo optaram por outro caminho. […]

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