Reerguer repensando

Se as coisas pararem de dar errado, hoje, dia primeiro de dezembro de dois mil e oito é o dia seguinte a tragédia. O dia em que Blumenau, Itajaí e outras cidades afetadas pela grande enchente de 2008 começam, de verdade, buscar a volta para normalidade. Começam um difícil retorno que vai durar muito tempo, pelo menos 2 anos.

crianca desabrigada blumenau

foto: Adriana Franciosi, Jornal de Santa Catarina

Porque aconteceu a tragédia de Santa Catarina?

Agora, além de reerguer, é prudente repensar. Esta é uma ocorrência recorrente e previsível para a região do Vale do Itajaí, se observar o quadro do Pico das Enchentes em Blumenau verá que desde a sua fundação, o Rio Itajaí-Açu sobre nessa época e todo o vale até Itajaí e Navegantes é afetado pela cheia dos rios. O que nunca havia acontecido com essa intensidade foram os deslizamentos nos morros, responsável pela grande maioria das vítimas. O Eloy, conversando no MSN, me disse:

Os empresários, agricultores, políticos e boa parte da população reclamam das leis ambientais, principalmente do código florestal, que estipula a distância da margem de rios que tem que ser preservado e não pode ser ocupado, normatiza a ocupação de encostas com base na inclinação do terreno e proíbe a ocupação no terço superior dos morros. Se tudo isso fosse respeitado o desastre seria bem menor. Afinal os desastres naturais só são desastres por que atingem o homem. Quando ocorre algum deslizamento de terra em algum lugar da serra que não atinge ninguém diretamente, não é “desastre” é um processo natural.

O meu amigo geólogo geógrafo, tem razão. Em Blumenau é difícil (mas não impossível) não edificar próximo a algum morro ou rio. Veja uma foto aérea do maior shopping da cidade, que fica numa das principais avenidas do centro de Blumenau. Olhe ao seu redor e veja se é fácil se manter longe dos morros? Os morros e os rios estão por toda parte, são lindos e graças ao fato da nossa região ser tão montanhosa ela não foi devastada para virar plantações de cana de açúcar, milho ou soja, apesar de ter as remanescentes de mata atlântica as margens dos rios quase que totalmente devastada (ninguém é santo). Quem já nos visitou sabe do que eu estou falando, os que não conhecem especulam a respeito. shopping blumenau Vejam essa outra foto aérea do Bairro Progresso, também central, olhem ao fundo e me digam o que vêem. progresso blumenau Mas agora é hora de repensar a nossa ocupação da cidade e seus arredores. Não é simplesmente uma questão de respeito à natureza, mas de revisão e respeito das leis de zoneamento e respeito ao código florestal. Em tempo de reconstrução, nunca é demais lembrar, são 78.000 desabrigados e desalojados que não sabem quando e se poderão voltar para suas casas, no caso de elas ainda existirem ou não estarem condenadas. Continue arrecadando, faça campanhas no seu prédio de condomínio, na sua rua, na sua escola, no trabalho. Roupas, água mineral, comidas prontas para o consumo como biscoitos, barras de cereais, leite, pães. Tudo pode ser levado até a uma agência dos Correios e endereçada à Defesa Civil de Santa Catarina, os Correios trazem de graça.

Post Scriptum 02/12/2008: A Dra. Mônica Lopes Gonçalves da Univille teve um texto sucinto, mas muito explicativo, falando sobre algumas das causas da gravidade do que ocorreu, dentre eles a Desobediência do Código Florestal, vale a pena.

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13 comentários em “Reerguer repensando
  1. Flavia Sereia disse:

    Júnior, foi vendo o programa da Record ontem que percebi o problema, o lugar mais atingido o Morro do Baú, onde morreu mais pessoas, estava quase todo desmatado, tiraram as árvores com raizes ( são elas que seguram a terra ) para plantar bananeiras, uma arvore que acumula ainda mais água, tiraram a vegetação para criar pasto. É a ação irresponsável do homem. E o caso das pessoas que resolveram voltar pra o morro mesmo contra os avisos da defesa civil?? desastre, morreram todos, 4 pessoas, e eles já haviam sidos resgatados antes. Hoje no jornal foi dito que 60% dos locais que houve as enchentes em blumenau e itajaí não podem mais ser reocupados pelas pessoas. Vc acredita que as pessoas vão mesmo deixar isso pra trás? vão voltar para lá e só Deus sabe o que pode acontecer.
    Se alguma coisa não for feita, e não estou só falando do governo, estou falando de pessoas obedecerem as leis do codigo florestal, se as pessoas não se derem conta disso que a natureza cobra os maus tratos causados à ela, novos desastres como esses vão continuar acontecendo.

    bjs

  2. Eloy disse:

    vou por partes, tentar ser direto e objetivo:

    1 – Na próxima vez me avise que capricho mais no texto.

    2 – Não iria corrigir pois sei que fez só pra me provocar, mas os outros leitores não sabem: sou geógrafo.

    3 – Dois dias depois da nossa conversa apareceu uma entrevista com a Prof. Dr. Maria Lucia, da Geografia da UFSC, ela falou mais ou menos o que eu disse: falta planejamento. Também entrevistaram um Dr. em Arquitetura, também da UFSC, que alertava que as populações carentes, que foram atingidas agora (e já foram em outros episódios) não terão recursos para comprar terrenos em áreas consideradas sem risco. Já pensou quanto vai valer estas áreas? Quem vai poder comprar? A população carente vai ocupar onde tiver condições de pagar.

    4 – Ainda não recebi, mas já fiquei sabendo de um e-mail que está circulando solicitando Geógrafos, Geólogos, Cartógrafos e Urbanistas para VOLUNTARIAMENTE realizarem estudos que definam as áreas de risco e façam o planejamento urbano destas áreas.
    Meu primeiro pensamento foi: legal, vou me informar a respeito. Mas pensei também da complexidade do tema, não é algo que se resolve com voluntários, como se fosse fazer um mutirão para levantar uma casa.

    Também lembrei que raras são as prefeituras que têm órgãos de planejamento e as que tem, quase todas têm apenas arquitetos (nada contra os arquitetos, mas cada um na sua área). É raríssimo abrir concurso público para a contratação de Geógrafos, Cartógrafos, Geólogos e Urbanistas. E agora, que a água bateu literalmente no pescoço vêem pedir voluntários.
    Além do mais voluntários não irão resolver o problema, são necessários estudos continuados, anos de pesquisas. Isso não será nada além de um placebo.
    Torço pra que eu esteja errado, mas duvido que as próximas gestões das prefeituras, que assumem em janeiro agora, vão colocar como prioridade a contratação de profissionais com competência para pensar o planejamento das cidades.

    tá na hora de eu fazer meu blog sobre assuntos diversos. Alguma sugestão de nome?

  3. Carol Linden disse:

    Não sabia dos Correios. Hoje fiquei sabendo da Infraero. Fui deixar cobertores no aeroporto aqui em Brasília e fiquei feliz de ver uma sala cheia de caixas, quase todas identificadas como sendo de roupas.
    Embora ainda tenha gente que acha que não precisa ajudar, que é obrigação do governo ou que é “jogada de marketing” continuo fazendo meu trabalho de formiguinha. Daqui a pouco ninguém mais me agüenta. 🙂
    Espero que em breve as coisas estejam mais próximas da normalidade para que você e Bianca possam continuar criando presentes e pescando com moscas.
    Bjs.

  4. raquel a. disse:

    a ajuda de todo o país não pode parar! tô correndo atrás aqui no que posso pra ajudar essa gente, fora que aqui no rio, algumas cidades também precisam de ajuda (no norte fluminense), mas a dimensão da tragédia, graças a deus, é menor.

    como acontece em todo o país, a ocupação desordenada prejudica o próprio homem. enquanto as gestões públicas negligenciarem tanta coisa ERRADA que acontece, fechando os olhos pro que pode acontecer, assistiremos episódios tão tristes e lamentáveis quanto este em sc!

    e vamos que vamos! um beijo!

  5. Junior, morando na serra fluminense e tendo passado por uma chuva dessas em 2006, aprendi que estamos, como diria a equipe econômica do FHC, no limite da irresponsabilidade!

    Em muito menor escala, aconteceu em Nova Friburgo e arredores o que ocorreu em Blumenau e nem foi uma questão de inundação, já que só temos um rio, o Bengalas, que é minúsculo. O problema foram as quedas de barreiras, levando casas e pessoas.

    Aprendemos alguma coisa ? Duvido. O Eloy comentou que o pessoal pobre não tem recursos para construiir ou comprar alguma coisa fora das áreas de risco. Aqui, a cidade inteira é plantada em cima de morros. Área plana só ao longo do Rio Bengalas.

    Eu mesmo, moro numa espécie de vale, a mais de 1000 metros acima do mar e o terreno é inclinado para oeste, de forma suave, mas inclinado. Não existe lugar plano aqui.

    Não temos Geotécnica. A Defesa Civil é esforçada e vibrante mas limitada. A Associação de Engenheiros ajuda muito e faz barulho mas as pessoas constroem cada vez mais morro acima e morro abaixo.

    E isso é um microcosmo, no restante do país outros abusos acontecem, pelos mais variados motivos.

    Os catarinenes vão reconstuir Blumenau, Itajaí e demais cidades. Mas, se nada mudar, tudo vai se repetir na próxima chuva.

    Um abração.

  6. dctucci disse:

    Está cada vez mais claro que falta planejamento,né JUNIOR. E não é apenas por ai,não. Vc sabe que é uma maldita epidemia nacional.Planejar demanda tempo e cérebro.Conjunção perigosa pra quem já quer decolar politicamente.

    Mas agora é muito facil ficar procurando culpados,enquanto tem muuita gente sofrendo e passando o que ninguém merece.
    A ajuda,doações,contribuições têm que continuar por muito tempo. Não será rapidamente que tudo vai ser recuperado.
    Mas,agora sim,é que as otoridades Têm que repensar muita coisa.

    A natureza não vai parar. Tudo vai acontecer de novo. Certamente!! Cabe a nós estarmos preparados.

    Abração!

    http://www.ramsessecxxi.blogger.com.br/

  7. Carla disse:

    Júnior, fiquei boba em ver a topografia/geografia dessa região!!
    Não sabia que era assim, entre morros e vales!
    Quanto perigo em volta, né?
    O que me resta fazer, além das contribuições que tenho feito, é torcer para que essa reconstrução seja feita da melhor forma possível, visando, claro, a segurança das construções.
    Bjo.

  8. Lula disse:

    Estamos ficando especialistas em ‘leite derramado’, brother. Não há ninguém aqui que não tenha dito, logo no início de toda a tragédia, que ‘é culpa do próprio homem’.

    Vi no jornal nacional famílias recebendo até vinte pessoas em casa. Emocionante.

    Estamos arrecadando e enviando tudo o que podemos, por aqui.

    Boa sorte. Estamos orando por todos vocês aí.

    As fotos falam por si só.

    Abração geral.

  9. […] Se o Código Florestal Brasileiro tivesse sido respeitado, e nesse caso, especialmente no que diz respeito às áreas de preservação permanente (APP) que incluem topos de morro, encostas e mata ciliares, não veríamos erosão e assoreamento nessa escala. É hora de reeguer, repensando. […]

  10. Luma disse:

    Júnior, tudo muito desconsolador! O que dizer, o lance é fazer mesmo!!

    Veja o comentário que o Milton (http://miltontoshiba.blogspot.com) deixou lá no luz:
    “Planejamento depende de competência e vontade.
    Normalmente obras planejadas demandam tempo e demoram a mostrar os resultados.
    Florianópolis é um exemplo. Sabe-se que o tipo de solo, não suporta tanto volume de água.
    Brusque, vizinha e com o mesmo tipo de solo e com rio passando no meio da cidade, não apresentou problemas. Anos atrás, fizeram obra de saneamento, muito criticada, pois aparentemente era inócua.
    Hoje os resultados estão ai.
    Espero que Florianópolis, comece a reconstrução com obras corretas, em vez de demagogas.
    Bjs
    Milton Toshiba | Homepage | 12.03.08 – 5:54 pm | #”

    Havia algum projeto neste sentido por aí?
    Lembra daquele ciclone que também pegou a região e que também foi demais, além da medida?
    Parece que as mudanças estão vindo à trem bala.
    Beijus

    Oi Luma, existem problemas sim, mas comparar a geografia de Brusque com a de Blumenau e região é demonstração de falta de familiaridade com o assunto. Faltou também comparar a quantidade de chuva que caiu aqui e lá especialmente naquele final de semana.
    Beijos, Junior

  11. […] vermes e a Favela no Poder – Nova Corja Existe racismo no Brasil – Mundo em Movimentos reerguer pensando – escalafobético Metrô e CPTM em São Paulo – A vida como a vida […]

  12. Yvonne disse:

    Querido, só espero que SC volte a ser o que era: um estado lindo. Beijocas

  13. […] vermes e a Favela no Poder – Nova Corja Existe racismo no Brasil – Mundo em Movimentos reerguer pensando – escalafobético Metrô e CPTM em São Paulo – A vida como a vida […]

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