Tá rolando uma blogagem coletiva bem legal sobre adoção, organizada pela Geórgia. Apesar de não ser bom em aderir a essas coletivas, resolvi “si envorvê” nessa, já que eu sou filho adotado. Talvez seja bacana as pessoas que escrevem sobre o assunto saberem o que pensa um deles.

Falar sobre as campanhas de adoção até pode ser bem legal, mas não devemos deixar de falar sobre a responsabilidade da natalidade. Crianças órfãs de pai e mãe é uma coisa, crianças abandonadas em orfanatos por falta de responsabilidade na hora de trepar é outra bem diferente. Não sei avaliar as consequências emocionais para uma pessoa que foi abandonada nessas condições, mas devem ser péssimas.

Não quero redigir um Manual da Adoção, só vou falar então de adotados órfãos de pai, de mãe ou ambos.

A primeira coisa a dizer a um adotado é a verdade sobre essa sua condição, mesmo antes de ele começar a entender essas coisas.

A segunda coisa é não dizer a um adotado que “pai e mãe são aqueles que criam, que educam”, e todo esse blá blá blá, por mais que todos queiram que seja assim, não é, e ele sabe disso, não passe por mentiroso.

A terceira coisa é: nunca tente se colocar emocionalmente no lugar de um adotado pra tentar entender seus sentimentos.

Os cientistas já entendem que quando a mãe amamenta o bebe pela primeira vez, acontece uma descarga única de um determinado hormônio em ambos, e isso gera aquela ligação incrível que há entre mãe e filho. Os cientistas dizem também que se o pai estiver presente isso também ocorre com ele. Mas não é só essa ligação feita através da amamentação e tals, filhos biológicos tem ligações estabelecidas com seus pais através de meses de gestação. Geralmente passam a vida tendo uma sensação que ninguém sabe de onde vem, mas que lhe diz que a sua mãe daria própria vida por ele e vice-versa. Vai entender, são os famosos “amor de mãe”, “amor de pai”.

Pergunte a um adotado se ele também sente isso, mas peça-lhe sinceridade, a maioria não gosta de falar a respeito. Você é capaz de adivinhar por quê? Porque ele não sabe sequer do que você está falando.

Então, as pessoas com quem o adotado tem essas ligações estabelecida não são as mesmas pessoas que o criaram. Ele sente essa ligação, só que em muitos casos por alguém que ele nem sabe quem é. Isso é ou não bem louco? Daí a busca desesperada de muitos adotados em reatar seus vínculos, sacaram?

Adotados não gostam de falar sobre esses assuntos, dificilmente se expõem como estou fazendo, pois quando o fazem sempre são repreendidos, ou tentam suprimir os seus sentimentos, ou ainda fazê-los sentir o que não sentem. Mas tentem conversar sobre isso com um adotado de 15 anos, depois busque esse assunto com um de 40 (estou bem perto disso) e verás a diferença de quem levou anos pra entender as contradições dos seus sentimentos.

Filhos adotados sabem que são peixes fora d’água, eles podem passar a sua vida inteira sem exteriorizar esse sentimento, podem até tentar sufocá-los, mas eles sabem. A família que o recebeu certamente o fez por amor, certamente passou uma vida buscando tornar o adotado o mais legítimo possível, tratou-o o exatamente como aos seus “irmãos”, mas isso nunca vai criar artificialmente aquelas ligações que eu falei parágrafos antes, que existe entre os outros membros da família, menos com ele.

¿A vida de um adotado é uma droga por causa disso tudo?

Claro que não, é quase tudo igual a vida de todos, só é emocionalmente diferente, nada demais. Respeite esse fato e faça um adotado feliz (risos).

Quando você incentivar pessoas a adotarem crianças, órfãs ou abandonadas, incentive-as também a buscar apoio psicológico com profissionais especializados no assunto. Não a nada melhor para pais e filhos adotivos que trabalharem emocionalmente o fato de que no caso deles, apesar do amor que certamente nutrem uns pelos outros, a expressão “pais e filhos” não ir muito além de uma bela figura de retórica.

Post Scriptum: Aos meus pais, irmãos e irmãs, biológicos ou não que lerem este texto, saibam que eu lhes serei eternamente grato, e que os amo com todo meu coração.



22 Responses to “Manual da adoção, por um adotado”  

  1. 1 Herika

    Puxa, nunca nenhuma pessoa adotada que eu conheço tinha dito algo assim. Gostei da sua sinceridade. Pra falar a verdade acho que tenho mais contato com pessoas que adotaram do que com pessoas que foram adotadas e quem adotou sempre o faz por amor.
    Como mãe posso falar que é muito fácil amar uma criança quer você tenha gerado ou não.

  2. 2 Luma

    Não posso afirmar algo que realmente não sinto na pele, mas daí ficam os questionamentos. E a mãe que não pode amamentar? O pai que não pode conviver nem mesmo duas horas diárias com seu filho? E a mãe que tem febre puerperal? E os casamentos que entram em crise por causa do nascimento de um filho? Esses pais amariam menos os seus filhos? Sinceramente, Júnior! Eu tenho irmãos e sobrinhos adotados e vejo o quanto em casa todos se esforçaram para que não houvessem diferenças, mesmo que o pessoal na rua, insistisse em ficar lembrando. Talvez por isso também muitas pessoas não gostam de falar que os filhos são adotados ou os adotados dizerem o mesmo. A nossa sociedade não está preparada para um amor genuíno, não somente entre pais e filhos, mas entre um homem e mulher – um não tem que ser mais bonzinho que o outro para fazer uma ‘boa ação’. Não sei se me faço entendida. A honestidade de sentimentos conta muito na adoção e sou a favor da demora nos trâmites, até porque, quem está a fim de verdade, não desiste! Beijus

    Luma querida, realmente não podes objetar com mais propriedade que eu sobre esse assunto, apesar de poder fazê-lo sobre muitos outros. Mães que não podem amamentar… pais distantes… problemas de saúde… são outros assuntos, podem ser diferentes de tudo que eu falei, afinal, não sei o que é ser filho de uma mãe que não amamentou. A minha mãe biológica me amamentou por 10 meses e faleceu no 11° mês, e meu pai esteve ao nosso lado por todo esse tempo, depois não mais, apesar de querer muito. Você tem razão, as pessoas se esforçam pra que não haja diferenças, e se esforçam ainda mais para continuar acreditando que não há, as vezes até as escondem, como você mesmo disse. Essa é a beleza do subjetivismo humano. ;-) Beijos

  3. Jr, primeiro muito obrigada por abrir essa excessao em relacao a blogagem coletiva.

    Gostei da sua clareza e foi direto no estômago da questao.
    Quem está do outro lado da linha nao pode mesmo entender os sentimentos e medos que estao dentro de cada ser humano e imagina num adotado.

    Como vc disse ele vai sempre se sentir um peixe fora d’água mesmo que para os pais adotivos nao seja assim. Mas olha, eu que nao sou adotiva muitas das vezes me senti assim quando minha mae deu preferência para uma prima que morava conosco. Minha irma tinha o mesmo sentimento em relacao a mim e assim por adiante. Eu acredito que todo ser humano tem suas fases, a maneira como vc encara cada coisa é que te trará solucoes diferentes e comportamentos diferentes. Eu vejo isso nas pessoas, por elas serem diferentes. Talvez um problema na minha vida eu possa enfrentá-lo melhor que outro ou talvez nao, depende do momento.
    Como vc escreveu: A vida é diferente aos 15, aos 30, aos 40…

    Muitíssimo obrigada pela particpacao e adorei a sua franqueza num diálogo bem aberto.

    Valeu e um grande abraco

  4. Um ponto vista importantíssimo, meu caro xará. Talvez, o do maior interessado no assunto, não é mesmo ? rsrsrs Eu ia argumentar alguma coisa mas a Luma já fez e você respondeu. A família de minha mãe, lá do Mato Grosso, podia e adotava crianças sem pais ou filhos “dados”, como era comum no início do século XX (é claro…). Cheguei a conhecer alguns deles e todos, já adultos ou velhinhos, sabiam da condição de adotado e tinham muito amor pela família que os acolhera.
    Você tem razão: o tempo é sábio…
    Um grande abraço.

  5. 5 Norma Sueli

    Jr. meu mano de sangue…
    Fiquei muito emocinada com sua franqueza, e como te conheço desde que abriu os olhinhos para o mundo, sei exatamente o que você quer dizer quanto as diferenças emocionais de uma criança adotada, até já batemos longos papos sobre isto pelas madrugadas afora.
    Você também sabe o que sinto, quanto ao fato de irmãos serem separados e ter que conviver com esta condição, não por vontade própria, mas por uma lei do destino.
    Acho que realmente só quem vive esta situação de adotado ou de irmãos separados é que tem propriedade para exteriorizar sentimentos.
    Ainda bem que apesar disto, nossa vida não é uma droga! Somos felizes e temos o direito de ser emocionalmente diferentes!
    Beijos querido!

  6. 6 DO

    Decididamente esta blogagem coletiva foi show. Não bastassem as ótimas histórias que já li,agora deparo-me com alguém que vivencia isto ,de verdade,desde piquititico.
    Parabens pela abordagem,JUNIOR. Sinceramente eu nunca tinha lido nada tão claro e honesto a respeito.

    Abração!!

  7. 7 Carla

    O que dizer após ler esse post?
    Só posso dizer que ele toca o coração porque é sincero, transparente, sem mais delongas.
    Bjo.

  8. 8 Yvonne

    Junior, você está de parabéns pela coragem desse post. Fiquei impressionada com a sua sinceridade e experiência. Valeu a pena ler a sua história. Beijocas

  9. 9 Lu Souza

    Junior…é a primeira vez que vejo alguém dizer de verdade o que se passa. E como tenho intençao de adotar uma criança, terei um pouco mais de cuidado na questao: cobrar, se fazer amado, demonstrar amor…porque cada um tem seu espaço né.
    Eu fui criada em duas familias (com a minha mãe – sou orfã de pai; e com a patroa dela quase que ao mesmo tempo e sou muito feliz com isso, nunca tive nehum tipo de confusao, mas na minha familia de sangue teve, pq meus irmaos me achavam “mais estimada, mais mimada” pq tinha duas pessoas me paparicando.
    Sei que a situação é bem diferente, mesmo pq se tratava de uma familia q nao tinha uma filha e “me adotaram” nao legalmente, apenas divia o tempo com eles. Foi bom pra todos! Mas tive bastante transtorno com as pessoas da cidade, sempre perguntando, bisbilhotando, tal…enfim, sobrevivi e vc tem razão, o laço com a familia biologica é Muuuuuuito diferente!
    Obrigada pela sua sinceridade!
    Big beijos e bom fim de semana!

  10. 10 Lula

    Pois eu vou te confessar uma coisa: SOMOS IRMÃOS GÊMEOS!!!!! Eu sempre soube disso mas não queria te dizer. Sacumé, você é lindão (puxou mamãe, claro) e eu sou feião (acho que foi papai, ou sei lá quem).

    Cara! dá pra ver que vc é único, colocou tudo com a inteligência que lhe é pertinente e que todos sabemos que vc tem. Vejo que vc não se importa em saber quem foram, mas isso não faz a menor diferença, já que tenho certeza que foram ELES que perderam.

    E eu ganhei um irmãozão legal da pooooorra!!!!!!!

    Beijão geral (foi o Ozzy que te orientou nessa, né?)

    Vou dar uma olhada no site da Georgia, on my mind.

  11. Certas coisas só quem vive a situação é que tem como opinar, foi bom ler o lado de um adotado, vc pós por terra alguns conceitos errados que as pessoas costumam ter com respeito a relação de pais e filhos adotados.
    Posto vai servir muito bem para quem pensa e quer adotar, que sigam seus conselhos postados aqui.
    bjs

  12. Junior, este texto vai se tornar, num futuro próximo uma cartilha para profissionais que lidam com tal situação, pois aborda as arestas da questão, difíceis de serem aparadas, e que você oferece um caminho a ser seguido. Parabéns pela coragem e pela colaboração sadia em prol da questão. Abração.

  13. Muito legal o que você escreveu, e que vai de encontro ao que eu escrevi sobre o tema, no sentido da responsabilidade em ter filhos, não só os adotados.

    Muita gente diz que blogagem coletiva não tem importância, porque não gera efeitos práticos.

    Eu discordo, especialmente com o que representa ESTA blogagem sobre a adoção.

    Isso porque, o grande efeito desta blogagem é fazer com que uma pessoa que esteja pensando em adotar, tenha subsídios para decidir pelo sim ou pelo não, em razão do fato de que os muitos post sobre ela, mostram as várias faces da questão.

  14. 14 Luma

    Júnior, você acrescentou um detalhe na resposta ao meu comentário que faz toda a diferença. Você foi amamentado pela sua mãe. Entendo perfeitamente a necessidade emocional de conhecer as origens, pais e irmãos. No final do ano passado, tive que viajar com a minha sobrinha menor para o Paraná, porque ela queria conhecer a mãe ‘verdadeira’. Essa minha sobrinha tinha 12 anos à época e quando se deparou com a mãe, pode entender toda a situação, o por quê ter sido adotada. A mãe apenas 10 anos mais velha do que ela. Todo o sentimento que tinha anteriormente, de ter sido arrancada da mãe se dissipou. Hoje, ela entende melhor que as fantasias, nem sempre levam a um lugar de sonho. Boa semana! BEijus

  15. Esclarecedor seu post.

    Tivemos, algumas situacoes em nossa familia, sobre, “quem era a mae”, geradas por omissao da verdade.

    A verdade deve ser dita sempre, desde do inicio.

    Beijinhose boa semana.

  16. Júnior, não vou questionar, discordar ou argumentar seu post.
    Sei exatamente do que vc está falando.
    Meu marido é adotado, e já passou por todas essas fases que vc citou. Está hoje com mais de cinquenta.
    Há mais de trinta acompanho os sentimentos, as vezes claros, as vezes contraditórios, as vezes cômodo, outras incômodo.
    Acho que o que sobra, depois de um balanço, é o amor imenso que se sente e pode ser sentido por uma criança.
    Um beijo

  17. 17 Tina

    Oi Junior!

    Fiquei emocionada com seu post. Parabéns pelo escrito e pelo descrito. Só quem sente na pele sabe dizer. Gostei muito mesmo.

    beijos querido e boa semana.

  18. 18 Bruna

    Junior, apesar de não ser adotada, perdi meu pai com 3 anos de idade e entendo esta sensação interna da “ligação” rompida. Eu o chamo de “vazio”, de “ausência”. Muita gente insiste em falar que é “falta” mas eu acredito que só sentimos falta do que a gente conheceu, e eu não conheci meu pai.

    Sinto muitíssimo por sua mãe ter falecido quando você era apenas um bebê. Sinto muitíssimo por ela ter perdido a oportunidade de criar o seu filho, imagino que não foi uma escolha que ela pôde fazer. E sinto muitíssimo por você ter passado o que passou.

    Beijo.

  19. 19 Carol

    Jr, ainda precisa falar sobre como vc escreveu maravilhosamente bem este texto, colocando vida entre as palavras? Nah, acho que não. O chato de aparecer pra comentar depois de tanta gente boa é ainda achar alguma criatividade e conseguir escrever algo que valha a pena de ser lido.
    MInha prima é adotada, mas “ela que se adotou”. Explico: era filha da empregada dos meus tios e um dia pediu pra mãe pra ser filha deles. Todos conversaram e se entenderam. Eles fizeram a adoção perante a justiça e a mãe caiu no mundo. A filha não sabe dela e nem quer, pois adora a vida de princesinha que leva com meu tio (minha tia faleceu tempos depois da adoção, tinha câncer).
    Um dia desses li sobre “órfãos de pais vivos”. O nome é meio idiota, mas descreve a relação que tenho com meu pai e que meu meio-irmão tem com o pai dele. Meu meio-irmão conviveu mais tempo com meu pai do que eu e herdou dele todas as manias insuportáveis. É uma sensação estranha essa de ter convivido com ele até os 15 anos, depois cada vez menos, até que ele sumiu totalmente.
    Acho meio piegas isso de se falar da ligação indissolúvel que a criança tem com a mãe. Sempre me dei pééééééééééssimamente mal com a minha e tenho muitas amigas (acho que a maioria delas) que vivem coisas parecidas. Vc fala sobre um acompanhamento psicológico para casos de adoção, eu acho que deveria haver para pais em geral – próximos, distantes, ausentes. É complicado conviver com a loucura alheia.
    Bjs.


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